Reflexão do mês
O Caos Narcísico e a Grande Tragédia
Por Gledson Cavalcanti
Tem um sentimento que nos atravessa desde os primeiros instantes de vida: o desamparo. Antes de qualquer palavra, de qualquer conquista, o ser humano chega ao mundo frágil, carente e inteiramente entregue ao cuidado de outro. É dessa ferida primeira que nasce a procura por segurança, por reconhecimento, por algo que nos complete.
A grande tragédia começa quando, no meio dessa procura, confundimos o TER com o SER. Passamos a medir quem somos por aquilo que temos: a imagem construída, o que foi conquistado, o que se exibe e o que se acumula. O TER promete aplacar o desamparo. Oferece controle, prestígio, um retrato apurado de nós mesmos. Só que ele nunca responde, de verdade, à pergunta que o desamparo nos faz.
O caos narcísico é esse movimento sem fim: quanto mais buscamos existir no TER, mais nos afastamos do SER. A imagem que construímos cobra manutenção constante. Cada conquista alivia por um instante e, logo em seguida, pede outra. O olhar do outro deixa de ser encontro e passa a ser plateia. Não é mais acolhimento, é julgamento. E quem vive sendo julgado vive em estado de defesa.
Existe uma experiência difícil de nomear, e muito comum: chegar ao TER que tanto era desejado e perceber que nada, no fundo, foi preenchido. A casa sonhada, o reconhecimento esperado, o sucesso que parecia a chave de tudo, e então um silêncio que nenhuma resposta aplaca. A grande tragédia não é a falta de TER. É ter deixado o SER de lado por tanto tempo que já não se sabe reconhecê-lo.
O SER não é um lugar de chegada, nem mais uma posse. O SER aparece no modo como sustentamos o desamparo, sem precisar negá-lo. Aparece na escuta verdadeira, no cuidado com o outro, na coragem de seguir sem a garantia de que tudo se resolverá. Aparece também no reconhecimento simples de que precisamos dos outros, e isso não diminui ninguém.
Conduzir alguém ao autoconhecimento é acompanhar esse percurso. O meu trabalho é cuidadoso, lúdico e profundo justamente porque o SER não se conquista com pressa e não cabe em fórmulas. Em cada sessão, caminhamos entre o que se apresenta e o que se esconde, com tempo e com presença.
O caos narcísico perde a força quando deixamos de usar o TER como muleta do SER. Não porque o TER seja um mal em si. Ele continua sendo parte da vida. É porque cada um de nós tem uma maneira autêntica de existir, e essa maneira não está à venda. O convite permanece o mesmo: voltar a sentir, sem pressa e sem escudo, a condição de ser humano, com o desamparo e com a beleza que o acompanham.